Ghoeber Morales discute Psicoterapia e Coaching Psychology

Entrevista publicada originalmente no site Boletim Contexto, da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC.

O Boletim Contexto entrevistou o Psicoterapeuta e Coach Ghoeber Morales. Nessa entrevista Ghoeber conta um pouco de sua trajetória profissional (incluindo uma sólida formação em Análise do Comportamento), discute as diferenças entre a psicoterapia e o Coaching, analisa a grande disseminação do Coaching no Brasil e alerta para a necessidade de usarmos uma linguagem mais acessível quando nos comunicarmos com o público em geral.

1. Ghoeber, muito obrigado por aceitar conceder essa entrevista. Você pode nos contar brevemente como foi a sua trajetória profissional até agora?

Agradeço pelo convite e oportunidade de contar um pouquinho da minha história e compartilhar algumas ideias que venho pensando recentemente. De forma breve, me formei em Psicologia na UFMG em Dezembro de 2003 e engatei o Mestrado em Análise do Comportamento na PUC/SP (2004-2006). Fui professor na graduação e pós-graduação em duas instituições privadas em Belo Horizonte de 2006 até 2013 (todas as disciplinas e estágios com enfoque na Análise do Comportamento). Em 2013 pedi demissão, fundei uma empresa e de lá pra cá trabalho 100% como autônomo – oferecendo palestras e workshops, além de continuar atuando como terapeuta (minha grande paixão desde a faculdade e com início da atuação em 2004), e como coach há 4 anos. Mais recentemente, há cerca de um ano e meio, fui contratado pela empresa Academia do Psicólogo para desenvolver e ministrar uma Formação em Coaching exclusiva para psicólogos.

2. Você trabalhou como professor em cursos de graduação de Psicologia e pós-graduação em Psicologia Comportamental e Análise Aplicada do Comportamento. O que o fez abrir mão da vida acadêmica?

Depois de aproximadamente 5 anos, comecei a ficar bastante incomodado com a enorme quantidade de demanda institucional repassada ao professor, excesso de trabalho em casa, bem como com a forma como a educação ocorre (muitas vezes) em nosso país hoje. Dar aula para muitas pessoas que estavam basicamente interessadas apenas “no canudo” (diploma), com pouca dedicação e comprometimento, apesar de todos os esforços dispensados por mim ao preparar excelentes conteúdos e discussões, passou a me frustrar muito. Comecei a ficar com a sensação de que minha vida estava passando e eu não estava desfrutando-a como queria.

3. O que diferencia o seu trabalho como terapeuta comportamental e como coach?

No Coaching, trabalho com um contrato fechado com 10 ou 15 sessões (com algumas variações), voltado para o alcance de um objetivo bastante específico. Faz-se um grande recorte na vida do cliente e o trabalho é voltado o tempo todo para atingir tal objetivo (não importa se o objetivo se refere a algo da vida pessoal ou profissional). Exemplos de objetivos poderiam ser: aumentar em 20% o faturamento da empresa; tornar-se referência em cirurgia plástica na cidade em que reside (sendo que isso para o cliente significaria atender 5 novas consultas particulares/semana, realizar pelo menos 15 procedimentos minimamente invasivos/mês e 10 cirurgias/mês, ganhar um salário de pelo menos R$ 30 mil/mês, etc.); passar numa prova de residência ou concurso; alcançar um novo cargo na empresa; decidir quais rumos profissionais seguir dentro da profissão atual, etc. Enfim, em todos estes exemplos, estamos falando de um indivíduo que obviamente tem problemas na vida, como qualquer outra pessoa, mas consegue lidar com as adversidades de uma forma boa o suficiente para que isso não funcione como um entrave emocional, e de um sujeito que está desejoso e escolhe, neste momento da vida, atingir um objetivo específico e pontual, que trará benefícios importantes para os demais setores de sua vida. Em resumo, num processo de Coaching estamos falando de um trabalho de curta duração (10, 12 ou 15 sessões costumam durar de 4 a 10 meses aproximadamente, com sessões espaçadas) com pessoas que, muitas vezes, estão já relativamente bem instrumentalizadas comportamental e emocionalmente, necessitando apenas de um “acompanhamento mais próximo e individualizado” (de alguém que se coloque como um parceiro nesta jornada rumo ao alcance de seu objetivo). No processo terapêutico (sem “início, meio e fim” pré-definido como ocorre no processo de Coaching), uma análise e compreensão minuciosa da história de vida do cliente, para ajudá-lo a compreender seu modo de funcionar, bem como ajudá-lo na alteração de possíveis padrões que o atrapalham, trazendo dificuldades e sofrimento, costuma ser frequente e se dá de forma bastante aprofundada. Obviamente há também clientes em terapia “funcionando bem”, com níveis de sofrimento que não representam entraves emocionais (e que poderiam se beneficiar de um processo de Coaching, por exemplo), mas cuja demanda costuma se desdobrar para outras questões, também importantes, em que o autoconhecimento aprofundado e a compreensão dos motivos pelos quais a pessoa se comporta de dada maneira, em diferentes contextos, guia todo o processo. Ou seja, no processo terapêutico não há um foco tão específico e um prazo pré-estabelecido para o alcance de um objetivo (como ocorre no Coaching), fazendo com que o processo se dê de forma bem diferente.

4. Além dos cursos específicos de Coaching, você fez algum curso específico em outra abordagem da psicologia para executar seu trabalho como coach? Você acredita que haja alguma abordagem da psicologia que facilite uma formação e atuação posterior em Coaching? Qual?

Não, não fiz nenhum curso específico em outra abordagem. Além das Formações em Coaching que eu fiz (e continuo fazendo), mantenho a Análise do Comportamento como referencial para guiar meu modo de compreender o ser humano, bem como auxiliá-lo. O Coaching utiliza-se de diferentes áreas do saber e ciências na construção de sua metodologia, sendo que a Psicologia (independentemente de qualquer abordagem) é sua principal fonte. Em 2015, num congresso de Coaching que participei nos Estados Unidos, e para o qual estou retornando este ano, o que mais vi foram palestrantes que eram psicólogos pesquisadores de Harvard, das mais diversas abordagens teóricas, trazendo resultados de pesquisas sobre comportamento humano e agregando-os ao Coaching. O que precisa ficar claro, e que às vezes acredito que para muitos psicólogos ainda é difícil, é que quando se tem clareza e tranquilidade de que o maior bem que podemos fazer ao outro é ajudá-lo genuinamente (sem se apegar a “brigas internas” que a Psicologia ainda às vezes mantém, com as diferentes “igrejinhas” e abordagens disputando com as outras por isso ou aquilo), a forma de fazê-lo é o que menos importa, desde que feito de forma ética e respeitosa. Nas Formações em Coaching que tenho ministrado, recebemos psicólogos das mais diversas abordagens e isso tem sido excepcional, já que cada profissional traz uma contribuição a partir do seu referencial teórico. Todos ali tem um mesmo objetivo, que é ajudar o cliente no alcance de algo que faz muito sentido para si. Cada um recebe o Coaching e, inevitavelmente, faz “leituras psicológicas” a partir de seu referencial teórico de preferência, mas acredito que mais do que haver uma abordagem que facilite uma formação ou mesmo que auxilie na atuação posterior como coach, o que conta é a abertura de cada psicólogo em relação ao Coaching. Portanto, não acredito que haja uma ou outra abordagem na Psicologia mais interessante e mais preparada para o Coaching. O que conta, no fim das contas, é a atitude de cada profissional frente a todo este conhecimento.

5. Você emprega algo do que aprendeu nos cursos de Análise do Comportamento no seu trabalho atual como coach?

O manejo clínico que eu aprendi (e que continuo tendo ao atuar como psicólogo clínico) faz toda a diferença ao conduzir processos de Coaching, na minha opinião. Num processo, de Coaching, inevitavelmente estamos suscitando questões que fazem com que o cliente lide diretamente com suas emoções, com impactos importantes sobre seu comportamento como um todo. Um bom manejo clínico (sem que o processo de Coaching se perca e vire terapia) é fundamental. Fora isso, tudo o que eu aprendi com a Análise do Comportamento continua perpassando minha prática profissional, serve de base para minha atuação profissional no geral.

6. Como você vê a grande disseminação do Coaching que ocorreu no Brasil nos últimos anos?

A disseminação eu vejo com excelentes olhos, já que acredito que o Coaching pode beneficiar muitas pessoas que querem impulsionar e potencializar suas vidas. Já a enorme banalização, vejo com muito pesar (apesar dessa banalização não se limitar apenas ao Brasil, acredito que estamos vivendo seu auge por aqui). Mas o que mais me dói é ver, ainda, um ENORME preconceito por parte dos psicólogos a respeito do Coaching. Profissionais que mal sabem o que é Coaching e que engrossam o caldo das críticas e da banalização. Psicólogos com medo e chateados (com razão, penso eu) por estarem perdendo espaço para “coaches de final de semana”, que infelizmente algumas vezes estão sim oferecendo processos de Coaching para demandas que são, certamente, demandas para um psicólogo, para um processo terapêutico. No entanto, à medida que a Psicologia não se apropria do Coaching, à medida que mais psicólogos, sem mesmo saber do que se trata o Coaching, “torcem o nariz” e engrossam o caldo do preconceito, mais e mais a Psicologia mantém sua imagem social desgastada como uma profissão que só ajuda pessoas “loucas”, em profundo sofrimento, etc., etc., etc., mantendo o estigma social. Afinal, você já deve ter reparado que para muita gente é super bacana dizer que está indo ali no coach… Poucos ainda falam “de boca cheia” que estão indo ali no psicólogo. Acredito que é nosso dever conhecermos a fundo o Coaching (como há mais de 15 anos tem ocorrido nos departamentos de Psicologia das principais instituições dos EUA, Inglaterra e Austrália, no movimento intitulado “Coaching Psychology” – se você não conhece nada, vale a pena dar um Google e se surpreender). Já que o Coaching faz uso primordialmente dos resultados científicos que a Psicologia tem produzido, o que me incomoda mesmo é ainda ver tamanho preconceito de muitos colegas “psi”. Particularmente, não defendo que apenas psicólogos deveriam atuar como coaches, até porque isso fere as bases do Coaching em si, mas não tenho dúvida alguma que todo o nosso conhecimento e habilidades desenvolvidas ao longo da graduação em Psicologia (sem contar os demais cursos, pós-graduações e experiências após a formatura) nos coloca numa posição privilegiada na condução de bons processos de Coaching.

7. Em uma conversa informal você me disse que achava importante evitar o “comportamentês” ou “behaviorês” ao se dirigir a um público leigo, por quê? O que você sugere ao invés disso?

O “behaviorês”, para o público leigo, é uma chatice! Não é assim que a gente vai atingir as pessoas da melhor forma possível e sim falando “a língua deles” (que é “a nossa língua” no cotidiano da vida). Afinal, queremos ou não queremos ajudar as pessoas? Caso sim, a forma como nos comunicamos tem que fazer sentido para elas em primeiro lugar, e não para nós. Nas instituições de ensino, nos congressos, tudo bem falarmos “behaviorês” (apesar de que acho que isso mais nos atrapalha do que nos ajuda, pois nestes ambientes refinamos nosso treino para falar “behaviorês”, no lugar de refinarmos nosso repertório para nos comunicarmos com quem consome os nossos serviços e o nosso conhecimento, a nossa ciência). Quando uma autora como a Glória Perez, por exemplo, coloca “A Força do Querer” como título de sua novela, ela está se comunicando claramente com as pessoas, que podem se conectar mais facilmente à sua obra, aumentando assim a probabilidade de assistirem aos episódios, etc. Vai chamar isso de “A magnitude do reforçamento positivo” ou “O papel das operações estabelecedoras no estabelecimento do comportamento” pra você ver? Tô trazendo um exemplo chulo, mas é por aí! Se acreditamos que a Análise do Comportamento é tão importante e útil, penso que devemos ensiná-la e disseminá-la de uma forma que faça sentido para as pessoas que se beneficiarão das tecnologias por ela produzidas.

8. Além de terapeuta e coach, você oferece workshops pelo Brasil e até em outros países. Que mudanças você acredita que este trabalho pode produzir nas pessoas que participam?

Estes workshops costumam funcionar, muitas vezes, como sensibilizadores da importância de olharmos para a vida que estamos construindo, nos responsabilizarmos por ela e efetuarmos algumas mudanças, se assim o desejarmos. Têm funcionado como um convite para cuidar do que realmente importa para cada um, tanto pessoalmente como profissionalmente. Os workshops, em si, costumam produzir ações efetivas rumo a determinados objetivos e, eventualmente, alguns dos participantes optam por investirem mais tempo num processo terapêutico ou mesmo de Coaching.

9. Como tem sido o seu contato com a comunidade de analistas do comportamento após você ter direcionado parte do seu trabalho ao Coaching?

Menor do que antes, já que nos últimos anos optei por me aprofundar mais nos estudos sobre Coaching, frequentando então mais congressos sobre o tema do que sobre Análise do Comportamento, por exemplo. Além disso, até dentro da nossa comunidade senti certo preconceito por parte de alguns profissionais por ter me tornado coach.

10. O que você tem a dizer aos estudantes e recém-formados que estão interessados em trabalhar com Coaching?

Gostaria de fazer um convite não só aos estudantes e recém-formados, mas a todos os psicólogos, para que tenham abertura para conhecer um pouco mais de perto sobre o Coaching, especialmente sobre o Coaching Psychology, visto que eu acredito que nós psicólogos temos o dever de, gradualmente, educar a sociedade para a importância que um psicólogo-coach pode ter na trajetória pessoal e profissional de uma pessoa e dentro das organizações.

Para não perder a oportunidade, seguem abaixo algumas definições de “Coaching Psychology”:

De acordo com Grant (2006, p. 16), trata-se da “aplicação sistemática da ciência comportamental para o aprimoramento da experiência de vida, desempenho no trabalho e bem-estar de indivíduos, grupos e organizações que não possuem problemas mentais clinicamente significativos ou níveis anormais de angústia”. Em termos gerais, Coaching Psychology transita entre a Psicologia do Esporte, Aconselhamento, Psicologia Clínica, Organizacional e Psicologia da Saúde. O Coaching Psychology apropria-se, de forma prática, de todo e qualquer conhecimento advindo da Psicologia (independente da abordagem teórica), utilizando-se para isso de técnicas, ferramentas e metodologia do Coaching a favor da população “funcionalmente saudável”, a fim de facilitar mudanças e promover o bem-estar.

Segundo Palmer e Whybrow (2005, p. 8), o Coaching Psychology é uma prática voltada para psicólogos e que tem suas raízes na Psicologia como forma de integrar os seus conhecimentos sobre o ser humano a fim de desenvolver formas de intervenção que promovam o bem-estar e o desempenho tanto individual quanto de grupos e organizações. Para os autores trata-se da “[…] aplicação de princípios e teorias psicológicas para apoiar a prática de Coaching”.

Deixo aqui também alguns links como sugestão de leitura:

GRANT, Anthony M. A personal perspective on professional coaching and the development of coaching psychology. In: International Coaching Psychology Review. v. 1 n. 1, p. 12-22, Apr., 2006.

GRANT, Anthony M.; CAVANAGH, Michael. Coaching Psychology: how did we get here and whereare we going?. [S.L.: s. n.], 2007.

GRANT, Anthony M. Developing an agenda for teaching coaching psychology. In: International Coaching Psychology Review. v. 6 n. 1, p. 84-99, Mar., 2011.

GREEN, L. S., Oades, L. G., & GRANT, A. M. Cognitive-behavioural, solutionfocused life coaching: Enhancing goal striving, well-being and hope. Journal of Positive Psychology, 1, 142-149. 2006.

HARVARD EXTENSION SCHOOL. Science of Coaching Psychology. [S.L.: s. n.], 2015.

PALMER, Stephen; WHYBROW, Alison. The proposal to establish a Special Group in Coaching Psychology. In: The Coaching Psychologist. n. 1, p. 5-12, July, 2005.

Ghoeber Morales

Psicólogo pela UFMG, Mestre em Análise do Comportamento pela PUC/SP, Master Coach pelo Center for Advanced Coaching (USA), Membro do Institute of Coaching (Harvard Medical School) e do International Society for Coaching Psychology (Londres).

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